A minha bis-avó está internada. No primeiro quarto do serviço onde ela está, havia dezenas de peluches por todo o lado. Nunca vi quem lá estava, mas um dia passei e ouvi-a a falar alegremente para alguém através do computador, era uma rapariga jovem. Um dia fui à sala de enfermagem para saber mais informações sobre a minha bis-avó, e enquanto esperava procurei-a no quadro, tem vinte e poucos anos e Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença neurodegenerativa que geralmente leva à morte uns 2 a 5 anos após o diagnóstico. Não consigo deixar de pensar nisto desde então... É uma doença horrível. Pode acontecer a qualquer um, aquela rapariga se calhar, no ano passado levava uma vida completamente normal e não fazia ideia o que o futuro lhe reservava. É horrível e injusto e absolutamente assustador.
Os peluches são queridos, imagino quem os decidiu por, terá sido a mãe, que a tenta fazer-se sentir em casa? Será a própria? Que está decidida a tornar o seu mundo mais colorido? ...
Este ano, não sei porquê, estou à beira de um ataque de nervos, e não o digo de forma figurativa. A mudança dos primeiros três anos de faculdade, em que só temos que estudar, para o 4º ano, que é já clínico é, para a maioria dos meus colegas, motivo de grande felicidade e orgulho. Para mim, por outro lado, trouxe-me mais medo que outra coisa. Não consigo explicar porquê, mas fui invadida pelo pânico de não ser boa suficiente, de não evoluir, de não ter sucesso. Hoje ia a conduzir e lembrei-me (é óbvio, mas no meio do meu medo 99% irracional não me havia ainda ocorrido), se estamos aqui, é porque não sabemos. Se soubéssemos não era preciso estar na faculdade, era só vestir uma bata, por o estetoscópio ao ombro e já estava.
Decidi criar este blog para ir relatando a vivência da minha aprendizagem, achei que seria interessante. Dito isto, vamos lá começar o primeiro ano clínico dos (espero eu) muitos que estão para vir!